Comunicação política não é pós-venda: é pré-governança
O governo tentou explicar depois. Mas o estrago já tinha sido feito.
Nos últimos meses, o governo federal protagonizou duas crises de imagem que não nasceram das decisões em si, mas da forma como foram comunicadas.
Em janeiro, a Receita Federal anunciou o monitoramento de transações via Pix acima de R$ 5 mil. Tecnicamente, não era imposto nem multa. Mas, sem uma narrativa clara e acessível, a percepção que se espalhou foi outra: “o governo vai taxar o Pix”. A oposição aproveitou o vácuo, as redes sociais amplificaram o ruído, e o resultado foi um recuo constrangedor.
Pouco tempo depois, em maio, a cena se repetiu com o anúncio do aumento do IOF para fundos no exterior. Em menos de 24 horas, a medida foi revogada diante da reação negativa do mercado. O roteiro foi o mesmo: ausência de escuta prévia, falta de alinhamento interno e despreparo para antecipar o impacto simbólico da decisão.
Esses episódios não revelam apenas falhas pontuais — expõem uma miopia estrutural. Ainda se trata a comunicação política como etapa final do processo, quando, na verdade, ela deve ser parte da arquitetura decisória.
Em tempos de polarização e hiperconectividade, não basta publicar: é preciso explicar, contextualizar e construir entendimento. Sem isso, até boas ideias viram crises. Com isso, até decisões difíceis podem ser legitimadas.
Governos que ignoram esse papel estratégico não apenas perdem apoio. Perdem a autoridade de governar com credibilidade.
Porque comunicar não é traduzir depois. É pensar junto desde o início.