Todo político é bandido, menos o meu!
O voto, mais do que um ato político, é um gesto de identidade.
A frase “todo político é bandido, menos o que eu voto” pode soar cínica à primeira vista, mas revela, na verdade, uma das dinâmicas mais complexas da política brasileira: a dissonância entre a desconfiança generalizada no sistema e a fidelidade afetiva ao “nosso” candidato.
Segundo dados do Datafolha, mais de 70% dos brasileiros acreditam que os políticos são corruptos. No entanto, nas eleições de 2022, cerca de 60% dos deputados federais conseguiram se reeleger. Como explicar essa contradição?
O voto como expressão de identidade
A resposta está longe da racionalidade. O voto, mais do que um ato político, é um gesto de identidade. Quando o eleitor escolhe um candidato, ele está, muitas vezes, escolhendo uma extensão de si mesmo, alguém que representa suas crenças, seus valores, sua visão de mundo.
Criticar o político que ele escolheu é, portanto, quase como criticar a si próprio. Por isso, mesmo diante de evidências, escândalos ou contradições, muitos eleitores permanecem fiéis. O político adversário é o “bandido”; o seu é “injustiçado”, “mal interpretado” ou, no mínimo, “melhor do que os outros”.
A batalha não é lógica, é emocional
Esse fenômeno é ainda mais acentuado em um cenário polarizado, onde a política virou território de paixões. A lógica factual perde espaço para a narrativa emocional. Não basta ter razão: é preciso ter conexão.
É por isso que tantas campanhas eleitorais falham ao apostar em ataques racionais ao adversário. Se o eleitor já escolheu seu lado, ele vai ignorar os dados e acolher a versão que confirma sua visão. Afinal, como disse o consultor político Carlos Manhanelli, pioneiro no marketing político brasileiro, “todo político é bandido, menos o que o eleitor escolheu”.
O que isso significa para quem vai disputar eleições?
Significa que não basta ser o mais preparado. É preciso ser percebido como próximo, confiável, representante legítimo de um grupo. Em outras palavras: comunicar-se com o inconsciente do eleitor, e não apenas com sua razão.
Para quem pretende disputar em 2026, esse é o ponto de partida. O desafio é menos sobre convencer e mais sobre pertencer.
Não é um problema. É um dado estratégico.